1.6.08

 

Tempos Difíceis


Regresso a estas lides após um breve interregno, durante o qual os candidatos à chefia do PSD se confrontaram entre si sobre quem é mais excelente para levar de novo o Partido à vitória nas próximas eleições legislativas, em Outubro de 2009.

De Doutrina, trataram pouco. Falaram de alguns temas económico-financeiros, como de costume, debitando as receitas usuais : controlo da despesa pública, reforma do Estado, menos Estado, para melhor Estado, aumento da competitividade das Empresas, aumento das exportações, reformas estruturais da Administração Pública para restituir a confiança aos Portugueses, reforma do Serviço Nacional de Saúde, etc., etc., aqui com a novidade de MFLeite querer acabar com o seu sentido universal, tendencialmente gratuito, como se designava, deixado assim apenas para os desvalidos e onerando, para os restantes cidadãos, toda a assistência prestada, com comparticipações e taxas, porventura maiores do que as que o governo socrático nos tem benemeritamente imposto.

Desta feita, pareceu-me, falaram menos no problema do Sistema de Ensino e da Educação dos Portugueses, coisa que terá agradado a MFLeite, dada a sua anterior responsabilidade na matéria.

Aqui a suposta Thatcher lusitana não poderia fazer jus à fama, porque quando sobraçou essa delicada Pasta se limitou a consentir no regabofe habitual, mais fórmula menos fórmula de cálculo da média para ingresso na Universidade, eldorado onde toda a nossa adolescência impreparada há-de entrar para obter o seu ambicionado Diploma, qual nova carta de alforria para os lusos tempos modernos.

Soube-se hoje, ao fim da tarde, que tinha saído vitoriosa Manuela Ferreira Leite, relegando Pedro Santana Lopes para um desonroso terceiro lugar, atrás até de um eternamente moço, que se distinguiu por ter comandado até quase aos 40 anos a organização juvenil do Partido, tão ocupado, na ingente tarefa, que quase se esquecia de concluir uma Licenciatura, não lhe tendo, porventura, ocorrido que havia uma Universidade, por sinal Independente, teme-se se do trabalho e do saber também, que a facultava por faxe, sem maçadas de aulas, nem de exames ou de projectos de fim de curso.

Tivesse ele contactado com aquele conhecido ex-JSD que, hoje, transmudado em socialista moderno, dirige superiormente o Governo da Nação e muito mais depressa teria resolvido esse pequeno óbice à sua completa assunção de estatuto de mandante político, melhor ainda se liberal, na Economia, como no plano social.

O Professor Marcelo, domingo à noite, há-de, por certo, assegurar-lhe um reconfortante e não mui distante futuro, para quando MFLeite se cansar de exaurir este seu enaltecido triunfo.

Confesso que me custa falar com ironia destas nossas reiteradas desgraças colectivas. Governados por um Partido dito Socialista, elogiado por ultra-liberais, esperançados numa alternativa que eventualmente emerja de uma oposição estranhamente chamada social-democrática, os Portugueses acham-se compreensivelmente à nora, desorientados, com tanta contradição doutrinária nos seus antigos conceitos políticos.

Levamos trinta e quatro anos de experiência neo-democrática e parecemos chegados a 1926, à descrença do final da Primeira República, de que só o acesso generalizado ao crédito nos tem permitido alguma evasão.

Entretanto, alguns nababos acharam o seu «caminho marítimo» para a riqueza e manifestam-se invariavelmente optimistas, verberando, na sua prosa liberal, putativas carpideiras e demais descrentes da senda de virtude e de progresso que o País não tem cessado de traçar, sobretudo no último decénio, apesar da sua descabida relutância.

Recentemente, porém, um distinto socialista não praticante, que há três anos elogiava efusivamente a governação socrática, ao mesmo tempo que denunciava os horrores da mesma política aplicada além-fronteiras, veio advertir os seus confrades no Governo que fariam melhor em reflectir, a sério, na pobreza e nas dificuldades que os cidadãos estão a enfrentar, com a sustentada carestia de vida provocada pelos sucessivos aumentos dos combustíveis e, agora também, dos géneros alimentícios, novo terreno visado da impiedosa especulação financeira globalizada.

Como já se calculava, Soares vê melhor ao longe do que ao perto, mas lá acabou também por enxergar alguma coisa por aqui onde estaciona, de vez em quando, entre dois voos transcontinentais. E lá se dignou aconselhar a família política que isto pode estar precário, também para ela, apesar do fraco crédito actual da oposição.

Pelo visto, não foi bem entendido no Governo que não anda a dormir nestas matérias e está atento à realidade do País, mesmo se compete com ele, Soares, quanto a viagens e ausências no Estrangeiro.

Enfim, acredita-se que ninguém, nunca, tenha sido impedido, nem pelo Demónio, de proferir uma verdade ou de fazer uma coisa certa, muito menos Soares, que amiúde, nestes anos mais chegados, se tem conseguido lembrar de, em tempos, hoje quase pré-históricos, haver jurado pelo Socialismo.

Na gaveta funda onde o terá guardado, segundo ele próprio o confessou, por mera questão de pragmatismo governativo, acaso de novo o encontrou.

Conviria que nos esclarecesse em que ele consiste agora, para nossa comum ilustração e, em particular, que o comunicasse ao seu antes mui elogiado camarada Primeiro-Ministro em exercício, que, de tanto tutear celebridades mundiais, socialistas como capitalistas, baralhou o seu pedaço as coordenadas do filantrópico ideário político que um dia abraçou.

Com tamanha confusão criada, por socialistas e social-democratas, sobretudo, acrescente-se, avizinham-se tempos ainda mais difíceis para os Portugueses.

Que trará MFLeite com a sua vitória para animar as hostes da oposição social-democrática, ela que também só recentemente começou a falar de problemas sociais, depois de nos ter contemplado com um discurso obsessivo acerca do défice orçamental pós-guterrista, afinal não dirimido, apesar do seu e nosso hercúleo esforço?

Aguardemos, então, os novos episódios deste arrastado drama social-democrático, na esperança de um dia, mais perto que distante, nos livrarmos do enorme embuste socialista, na versão socrática, depois de havermos conhecido a sua anterior modalidade, na pessoa do facundo Guterres, igualmente decepcionante, como, de resto, a do Patriarca Soares, muito loquaz no presente, mas sem cumprir, outra vez, aquilo que havia prometido quando saiu de Belém : escrever as suas memórias e cessar a actividade política.

Bem pode este velho Povo fiar-se de tais declarações das suas ditas ilustres figuras políticas…

Contudo, mais uma vez e sempre, não desesperar, porque atrás do tempo, tempo vem. Mas, como bem se sabe, para aproveitar o vento de feição, é mister haver a barca aparelhada…

AV_Lisboa, 31 de Maio de 2008

Comments:
gostei desta sua reflexão e doutras que por aqui vi!..

Tempos dificeis, estes, sim...e não vejo ventos de mudança.
 
então? parou?...:-)
 
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